Colômbia acusa Peru de ter se apropriado de ilha na tríplice fronteira com o Brasil

O que está acontecendo na Ilha de Santa Rosa? Entenda a disputa entre Peru e Colômbia
Na tríplice fronteira entre Brasil, Peru e Colômbia, uma pequena ilha localizada no meio do Rio Amazonas tornou-se o centro de uma tensão diplomática entre dois países vizinhos. A Ilha de Santa Rosa, até então pouco conhecida fora da região amazônica, ganhou destaque internacional após acusações públicas feitas pela Colômbia contra o Peru, envolvendo uma suposta apropriação territorial.
A disputa reacendeu um debate sobre limites fluviais, soberania e relações diplomáticas entre países da América do Sul.
Onde fica a Ilha de Santa Rosa?
A Ilha de Santa Rosa está situada no Rio Amazonas, bem na confluência entre os territórios do Brasil, do Peru e da Colômbia. É uma região remota, acessível apenas por via fluvial, e que abriga cerca de 3 mil moradores, a maioria vivendo em um povoado conhecido como Santa Rosa de Yavarí.
Apesar da sua importância geográfica, a ilha enfrenta problemas estruturais, como falta de saneamento, energia elétrica regular e serviços básicos de saúde. Ainda assim, sua localização a torna estratégica tanto do ponto de vista geopolítico quanto comercial.
Como começou a disputa?
A tensão mais recente entre Peru e Colômbia começou a escalar em julho de 2025, quando o governo peruano publicou uma lei criando o distrito de Santa Rosa de Loreto, que inclui oficialmente a ilha em sua divisão administrativa. A medida foi interpretada pela Colômbia como uma violação de um tratado de fronteira.
O presidente colombiano, Gustavo Petro, declarou publicamente que o Peru teria se apropriado de ilhas formadas naturalmente no curso do rio, e afirmou que isso contraria acordos internacionais. Em resposta, o governo do Peru afirmou que exerce soberania legítima sobre a ilha desde 1929, com base no trabalho da Comissão Mista Demarcadora formada naquela época.
O que dizem os dois lados?
Posição da Colômbia
Segundo a Colômbia, a ilha onde fica Santa Rosa teria surgido depois da assinatura do tratado de fronteira, devido ao deslocamento natural do Rio Amazonas. Por isso, a soberania sobre essa área deveria ser discutida entre os países.
O presidente Gustavo Petro acusou o Peru de desrespeitar o acordo internacional ao instalar um município em território que ele considera colombiano. Ainda afirmou que, embora a resposta inicial será diplomática, a Colômbia vai “defender sua soberania”.
Posição do Peru
O Ministério das Relações Exteriores do Peru rebateu as declarações, reafirmando que a Ilha de Chinería, onde está o povoado de Santa Rosa, faz parte do território peruano desde 1929. O governo alega que exerce soberania contínua e legítima há décadas, mantendo ali serviços públicos, escolas e órgãos administrativos.
Na nota oficial, o Peru expressou “o mais enérgico protesto” contra as alegações colombianas e garantiu que não houve nenhuma violação de tratados.
E o Brasil, como se posiciona?
Até o momento, o Brasil não se envolveu diretamente na disputa. O país mantém uma postura neutra e diplomática em relação aos seus vizinhos. Como a ilha em questão não está em território brasileiro, a questão não envolve diretamente a soberania nacional.
No entanto, por estar na tríplice fronteira e próximo à cidade de Tabatinga (AM), o Brasil acompanha de perto os desdobramentos, especialmente por questões de segurança regional e comércio transfronteiriço.
O que diz o tratado de 1928?
A base legal usada por ambos os países é o Tratado Salomón–Lozano, assinado em 1922 e ratificado em 1928, que estabeleceu os limites entre Peru e Colômbia. O tratado previa que a linha de fronteira seguiria o canal mais profundo do Rio Amazonas, uma definição comum em tratados que envolvem rios navegáveis.
A questão central da atual disputa está no fato de que, com o tempo, o curso do rio pode ter mudado, formando novas ilhas e alterando a geografia da região. Isso levanta dúvidas sobre se as formações posteriores são cobertas pelo tratado original.
A população da Ilha de Santa Rosa
Enquanto os governos debatem questões diplomáticas, quem mais sente os efeitos da instabilidade é a população local. Os moradores da Ilha de Santa Rosa, muitos deles vivendo em situação de vulnerabilidade, reclamam da falta de infraestrutura básica, como água potável, rede elétrica estável, serviços de saúde e saneamento.
Autoridades locais afirmam que o abandono da região contrasta com seu potencial turístico e econômico. O povoado de Santa Rosa de Yavarí é, inclusive, uma das paradas comuns para quem visita a região amazônica de barco.
A crise é recente, mas os atritos são antigos
A relação diplomática entre Peru e Colômbia não vive seus melhores dias desde 2022, quando o presidente peruano Pedro Castillo foi destituído do cargo. Na época, o presidente colombiano considerou o episódio um “golpe de Estado” e retirou o embaixador de Lima. O Peru reagiu na mesma moeda, retirando também seu representante.
Desde então, os dois países mantêm apenas encarregados de negócios, e não embaixadores de pleno poder. Isso significa que as comunicações diplomáticas estão limitadas, o que pode dificultar a resolução de conflitos como o atual.
Quais os próximos passos?
Apesar da tensão gerada, tanto o Peru quanto a Colômbia sinalizaram que pretendem seguir os caminhos diplomáticos. A expectativa é que, com a mediação de organismos internacionais ou mesmo por meio de reuniões bilaterais, os dois países encontrem uma solução pacífica para o impasse.
Especialistas em direito internacional recomendam a criação de comissões técnicas para reavaliar o território com base em dados geográficos atualizados e imagens de satélite. Uma das possibilidades seria revisar o impacto das mudanças naturais do rio sobre os limites estabelecidos há quase um século.
Uma questão de soberania, mas também de oportunidade
A crise envolvendo a Ilha de Santa Rosa expõe a complexidade das disputas territoriais em regiões fluviais. Em vez de se tornar motivo de conflito, a ilha poderia ser encarada como um símbolo de integração regional entre Peru, Colômbia e Brasil, promovendo desenvolvimento sustentável, turismo e cooperação entre os países da Amazônia.
No entanto, isso exige diálogo, diplomacia e investimento real na melhoria das condições de vida da população local. Enquanto isso não acontece, a Ilha de Santa Rosa continuará sendo mais lembrada pela disputa entre nações do que por seu verdadeiro valor geográfico, cultural e humano.


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